Em uma época onde a arte contemporânea gritava por atenção através de instalações grandiosas e provocações midiáticas, um pintor pernambucano escolheu o caminho inverso. Reynaldo Fonseca (1925-2012) construiu uma das obras mais consistentes e enigmáticas da arte brasileira através do silêncio, da disciplina monástica e de uma técnica que rivaliza com os mestres renascentistas.
Para Reynaldo Fonseca, pintar não era apenas uma profissão - era um ritual sagrado. Por 70 anos, ele manteve uma rotina imutável: acordar com o sol, pintar apenas com luz natural e trabalhar em absoluto silêncio. "Até mesmo os Cantos Gregorianos, que gosto muito, me atrapalham na hora de pintar", confessava o artista.
Essa disciplina espartana resultou em algo raro no cenário artístico brasileiro: coerência estilística absoluta. Compare "Menino com Máscara" (1973) e "Moça com Máscara" (1998) - obras separadas por 25 anos que parecem ter saído do mesmo período criativo. Enquanto muitos artistas buscavam reinvenção constante, Fonseca escolheu o aprofundamento.
Formado na tradição acadêmica, Fonseca dominou técnicas que remetem aos primitivos flamengos como Jan van Eyck, mas as colocou a serviço de uma visão completamente pessoal. Seus desenhos, milimetricamente planejados em papéis quadriculados, revelam um perfeccionismo que beira a obsessão.
"Só se pode alcançar um grande êxito quando nos mantemos fiéis a nós mesmos", dizia Nietzsche - e Fonseca incorporou essa filosofia literalmente. Nunca se deixou levar por modismos artísticos, preferindo aperfeiçoar sua linguagem visual única.
O mundo pictórico de Fonseca é dominado por tons de terracota, vermelho e marrom - uma paleta quente que evoca tempos ancestrais. "Tudo o que é real não me agrada", admitia o pintor, e essa frase revela a chave para entender sua obra: a busca por uma dimensão atemporal onde figuras humanas, animais e objetos existem em perpétua contemplação.
Dois elementos percorrem toda a obra de Fonseca como fios condutores: maçãs e máscaras. Estes símbolos carregam camadas de significado - desejo e timidez, revelação e ocultamento, sensualidade discreta que "não quer afrontar os sentidos".
As máscaras, em particular, transformam-se em metáforas poderosas sobre identidade e representação, temas cada vez mais relevantes em nossa era de pessoas digitais e identidades fluidas.
Fonseca possuía cerca de 150 obras próprias em seu acervo pessoal. Quando gostava de um quadro, simplesmente não vendia, "por maior que fosse a oferta". Essa postura revela um artista que entendia o valor duradouro de sua produção, muito antes do mercado de arte nacional reconhecer plenamente esse valor.
Suas obras estão hoje em coleções prestigiosas como a Pinacoteca de São Paulo, Coleção Gilberto Chateaubriand e Sul América, além de terem sido comercializadas pela Christie 's de Nova York - a maior casa de leilões de arte do mundo.
"Como um pintor que trabalhou muito e que fez o melhor que pôde" - assim Fonseca queria ser lembrado. Sua modéstia contrasta com a grandeza de seu feito: criar uma linguagem pictórica absolutamente pessoal em diálogo direto com a grande tradição da pintura ocidental.
Em tempos de arte conceitual e experimentação digital, Fonseca nos lembra que existe beleza na disciplina, profundidade na contemplação e eternidade no silêncio.
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Fotos: Martha Marques Oliveira
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